Blog
Vinho é vegano? A etapa que quase ninguém conhece

Fontes deste artigo — o que você lê abaixo é verificável. Cada afirmação de fato tem origem declarada.
· Os agentes de colagem de origem animal e o que cada um faz — ictiocola (colágeno de peixe), usada sobretudo em brancos; caseína, a principal proteína do leite; e a clara de ovo, comercialmente chamada albumina, um dos agentes mais usados em tintos: Australian Wine Research Institute.
· A lista oficial de clarificantes admitidos, que inclui tanto os de origem animal quanto alternativas como proteínas de origem vegetal, quitosana, bentonita e proteína de levedura: Código Internacional de Práticas Enológicas da OIV.
· O código de boas práticas específico para o uso de caseína e clara de ovo, por serem potencialmente alergênicos: OIV.
· O que não afirmamos: não dizemos quais rótulos do nosso catálogo são veganos. Essa informação depende do produtor, não é obrigatória no rótulo brasileiro, e não temos declaração formal de todos. Quem quiser certeza sobre uma garrafa específica, pergunte que a gente consulta o importador — e, se não conseguirmos a resposta, dizemos que não conseguimos.
Sua visita é vegana e você vai abrir vinho. Aí bate a dúvida: vinho não é só uva fermentada?
É. Mas entre a fermentação e a garrafa existe uma etapa que quase ninguém conhece, e é nela que entram ingredientes de origem animal. Eles não ficam no vinho — mas participaram do processo, e é isso que importa para quem é vegano.
A etapa que ninguém vê: a colagem
Vinho recém-fermentado é turvo. Há partículas em suspensão, proteínas instáveis, restos de levedura. Para clarificar, o produtor usa um agente de colagem: uma substância que se liga a essas partículas, forma flocos e faz tudo decantar para o fundo, de onde é retirado.
O nome vem daí — cola, no sentido de agregar. É uma técnica antiga e comum, usada na maioria dos vinhos do mundo.
E os agentes tradicionais são de origem animal
Os três mais usados têm origem que surpreende quem ouve pela primeira vez.
Ictiocola. É colágeno extraído de bexiga natatória de peixe. Usada sobretudo em vinho branco, porque clarifica bem sem mexer tanto na adstringência e no corpo.
Caseína. A principal proteína do leite. Empregada em brancos e em vinhos generosos, para reduzir compostos ligados ao amargor e ao escurecimento.
Clara de ovo. Comercialmente chamada de albumina, é um dos agentes mais usados em tinto — e há tradição centenária nisso, em Bordeaux inclusive.
Há ainda a gelatina, de origem animal também.
Mas eles não ficam no vinho
Essa é a parte que confunde, e vale entender. O agente de colagem é retirado: ele agrega as partículas, forma o floco, decanta, e o vinho é separado desse sedimento. O que sobra no líquido é, na prática, resíduo ínfimo ou nada detectável.
Tanto assim que a legislação europeia só exige declarar esses ingredientes no rótulo se a presença deles puder ser detectada no produto final. Quando a colagem é bem-feita, não é.
Ou seja, para quem tem alergia, o risco é considerado pequeno — e existe um código de boas práticas da OIV específico para caseína e clara de ovo, justamente por serem alergênicos.
Mas para quem é vegano a questão é outra. Não é sobre o que sobra no copo: é sobre o que foi usado no processo. E aí a resposta muda.
Existem alternativas, e são muitas
O código internacional de práticas enológicas lista os clarificantes admitidos, e boa parte deles não tem nada de animal: proteínas de origem vegetal, quitosana, bentonita — que é argila —, dióxido de silício coloidal, alginatos e proteína de levedura.
Há ainda o caminho de não clarificar. Vinho pode ser deixado decantar sozinho, com tempo e frio, e engarrafado sem colagem nenhuma. É o que traz no rótulo expressões como não filtrado ou sem colagem — e costuma dar vinho um pouco mais turvo, o que é opção estética do produtor.
Como saber se uma garrafa é vegana
E aqui vem a parte honesta, que é o motivo de este texto existir.
O rótulo brasileiro não é obrigado a informar isso. Não existe exigência de declarar o agente de colagem. Então a ausência da informação não quer dizer nada — nem que é, nem que não é.
O que existe são selos voluntários de certificação vegana, que alguns produtores buscam. Quando o selo está lá, é informação confiável. Quando não está, não dá para concluir.
Não confunda com orgânico nem com biodinâmico. São certificações sobre o cultivo e o uso de insumos na vinha, e não dizem nada sobre o agente de colagem. Um vinho orgânico pode perfeitamente ter sido colado com clara de ovo.
O que a gente faz aqui
Não vamos listar quais dos nossos rótulos são veganos, porque não temos declaração formal de todos os produtores e não afirmamos o que não conferimos.
O que fazemos é: se você perguntar por uma garrafa específica, a gente consulta o importador e te responde. E se não conseguirmos a resposta, dizemos que não conseguimos — o que também é uma resposta útil, porque te permite escolher outra coisa.
É mais trabalhoso que colocar um selo genérico na página. Mas é o único jeito de você decidir com informação de verdade.
Se quiser montar uma mesa sem susto, separei seis para ter em casa.
Venda proibida para menores de 18 anos. Aprecie com moderação.